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Eu Não Existo

O olhar maduro e feminino de Branca Lescher

No álbum “Eu Não Existo”, a cantora e compositora aborda temas como liberdade e autonomia, revelando sua afinidade com a estética musical da vanguarda paulista  

É fácil perceber que Branca Lescher é paulistana. Basta ouvir a canção “Eu Não Existo”, que dá título ao segundo disco autoral dessa cantora, compositora e poeta. Com a voz delicada, ela entoa os versos irônicos (“eu não existo /faça de conta /não perca o sono /dorme tranquilo”) quase como se estivesse falando.

 

Branca escolheu essa canção para abrir o álbum com uma provocação, já que a letra se relaciona de maneira paradoxal com as 11 canções que a seguem. “Todas elas falam de como eu quero ser livre, de como a mulher tem o direito de fazer o que ela quer”, reflete a compositora. Não é à toa que a triste canção “Desisto” (parceria com Edmiriam Modolo) termina em tom de redenção: “que se dane o bom senso /só me encontro de novo /com a liberdade”.

Como outros adolescentes paulistanos de sua geração, nos anos 1980, Branca foi a shows e ouviu discos de Arrigo Barnabé, de Itamar Assumpção e dos grupos Premê e Rumo – expoentes da chamada “vanguarda paulista”. Influência que ela reconhece no seu jeito falado de cantar e em composições de sua autoria que tendem ao minimalismo. 

Quem assina a produção musical e os arranjos do disco é Marcelo Segreto, parceiro de Branca há alguns anos. “Eu já disse ao Marcelo que este disco é tanto meu como dele”, comenta a cantora, ciente de que os arranjos com instrumentos de cordas trouxeram unidade e uma sonoridade original às gravações.

“Sou muito paulistana. Não me sinto uma cantora e compositora de samba ou de música brasileira mais tradicional”, admite Branca, que chegou a gravar canções de Ary Barroso e Tom Jobim, em seu disco de estreia (“Intimidade e Silêncio”, lançado em 2005). Dissonante e quebrado, o único samba no repertório do novo álbum, “Antes de Mim”, confirma a declaração da autora.

Essencial no conceito do disco, a canção “O Dia da Mulher” (parceria com Segreto) sintetiza a temática feminina presente em outras faixas. Nos versos, Branca expressa a indignação da mulher madura que se sente invisível quando não se submete a certas expectativas sociais, como tingir os cabelos brancos.

Já a divertida “Bigode Chinês” (outra com Segreto) brinca com a “mulherada” que malha nas academias e encara artifícios para reduzir os efeitos do envelhecimento. Bem-humorada também é “Dia das Mães”, sobre a frustração das mulheres que ao terem filhos se veem obrigadas a abrir mão de aspirações pessoais. “Meus filhos ficaram meio chocados”, conta Branca, referindo-se ao tom sarcástico de seus versos.

 

O contraponto a esse desabafo materno vem em duas canções. A doce “Violeta” (outra parceria com Edmiriam) é dedicada à filha recém-casada. Com batida de rock, “Salvo Conduto” inclui um típico conselho de mãe ao filho (“o teu amor leva contigo /mas não beba, não fume, não sofra /não durma demais”).

O álbum inclui também belas canções de temática amorosa, como “Taj Mahal” e “Lisboa” (parceria com Edmiriam). Mais inusitada, “Bailado” (outra com Edmiriam) é um fado leve que Branca escreveu após uma viagem a Portugal. As participações da cantora Cristina Clara e de Bernardo Couto, na guitarra portuguesa, garantem a sonoridade tipicamente lusitana.

Finalmente, a emotiva “Je Suis Nelson Mandela” ganhou um arranjo com quarteto de cordas. Admiradora do líder negro sul-africano que lutou contra a segregação racial, ela o incluiu nos versos como exemplo de superação. Em suas canções, Branca sugere que a mulher precisa enfrentar o machismo sem perder o humor e a ternura.

Carlos Calado é jornalista e crítico musical, colaborador da “Folha de S. Paulo” e do “Valor”