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Kadima

A primeira excursão. A primeira viagem internacional, para os Estados Unidos. Meu irmão de guardião. Sortudo, levou em um ano minha irmã, naquele seria eu. A excursão se chamava “Kadima” que em hebraico significa “adiante”, “seguir em frente”. Meus pais confiaram no tipo bonachão que era o monitor da viagem (um cara legal, mesmo).
 
Eu tinha doze anos, hora de tirar o passaporte.  Eles se deram conta de que eu ainda não tinha carteira de identidade. Tudo bem, era só tirar então a carteira de identidade para depois tirar o passaporte.
 
Nessa época eu passava muitas tardes no escritório dos meus pais. Minha segunda casa, conhecia todo mundo. Eu era aquela menina tagarela que perguntava tudo o tempo todo. Ir ao escritório era o jeito de estar com os meus pais, já que eles basicamente só trabalhavam.
 
Em uma tarde qualquer, eu lá conversando com o Elvio, um funcionário antigo, ele me conta que iria dar uma volta, eu perguntei:
 
-Elvio, para onde você está indo?
 
- Te registrar, Branca. Estou indo com o seu pai ao Cartório, fazer a sua certidão de nascimento, vou ser testemunha.
 
Não me recordo se fiquei brava ou surpresa. Lembro dele com uma calça bege de tergal, justa com um cinto marrom largo, uma camisa de voal branca com listras marrons, o cabelo repartido de lado, castanho claro, um típico cara dos anos setenta.
 
Eu não entendi direito, mas saquei, não sei como, que então se eu não existia formalmente, poderia ser registrada com outro nome.  
 
Subi correndo as escadas (um casarão na Av. Pacaembú) e entrei na sala dos meus pais (eles dividiam a mesma sala, uma bizarrice) e disse:
 
- Cris, eu quero me chamar Cris! Já que não tenho certidão eu quero mudar de nome!
 
Meus pais ficaram se olhando.
 
-Cris, minha mãe disse?  Cristina, por quê?
 
- Porque é chique eu disse, bem melhor que o meu.
Todo mundo me pergunta onde estão os sete anões. Se eu fico com vergonha falam que meu nome deveria ser “Vermelha”.  Cadê o Senhor Marinho, seu namorado? Muito chato.  
 
- Cris é muito mais legal, tem uma menina na escola que se chama Cristina, ela é demais, veio do Rio. Quando perguntam o nome dela, ela diz: Cristina, mas, podem me chamar de Crisss, com o “s” bem esticado, parece uma música.
 
- Branca, judeu não chama Cristina. É um nome que vem de Cristão e os judeus não acreditam em Cristo como os católicos. Não dá. Cristina não dá!
- Branca é o nome da sua bisavó e é um nome lindo, combina com você.
 
Não demorou nada para me convencerem. Os argumentos deles eram bons. Meu pai saiu com o Elvio e eu logo esqueci o assunto.
 
Me entregaram depois uma certidão de nascimento novinha confeccionada aos 12 de setembro de 1976, com o Elvio de testemunha.
 
Por anos me achei muito especial. Minha certidão tinha uma capinha cor de rosa e era nova e lustrosa.
 
Com o passaporte e meu irmão, fomos lá para os Estados Unidos. Comprei os brinquedos todos e três “All Star”, muito lindos, dois de cano baixo e um vinho de cano alto que eu nunca usei.
 
Muitos anos depois, querendo fazer meu mapa astral, como ninguém lembrava a hora em que nasci, fui até a maternidade Pro Matre na Rua São Carlos do Pinhal, perto da Avenida Paulista.
 
A mocinha da recepção achou o arquivo com o dia e a hora do meu nascimento, 04 de julho de 1964, às 12:15hs.