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Neusa Coiffeur

Sempre gostei de explorar o entorno, as lojinhas ao lado do trabalho, pequenos prazeres no meio da tarde. Quando trabalhava em um escritório na Rua Pamplona, conhecia todas as lojas da rua. Olhar as lojas me trazia algum alívio, a velha sensação de que o consumo serve pra compensar e amenizar a chatice da vida.

Quando mudei para o bairro em que moro fiz o mesmo. Devo ter ido em quase todas as lojas, mercados e em todos os cabeleireiros da região, até que cheguei na “Neusa Coiffeur”. Uma bagunça. Nunca as manicures duravam mais que alguns meses, nem os cabeleireiros, mas a Neusa me tratava muito bem. Era uma espécie de fã, dizia que gostava de mim, dos meus filhos, das minhas histórias, das minhas roupas.

Minha personalidade carente não resiste muito tempo ao assédio. Basta ser chamada de “Branquinha” que eu desmancho. A Neusa sacou bem. Eu chegava e ela logo ia fazendo propaganda de mim às outras clientes. Ficamos amigas, eu sabia tudo das suas filhas, uma morando na Austrália, a outra, publicitária, que sempre estava por lá, as três loiras, com um corpão.

Uma vez levei meu filho de cabelos super cacheados para cortar o cabelo com ela. Ela molhou os cachos, penteou e cortou de um lado só. Quando chegamos em casa, não muito longe, e os cabelos secaram, vimos que estava tudo torto. Ele chorou, ficou muito bravo, e só sossegou quando o barbeiro do clube – que ele já conhecia – cortou o cabelo dele, máquina dois, bem curtinho, até não sobrar nenhum cacho.

Mesmo assim, eu insisti na Neusa por mais alguns anos. Indiquei amigas, apesar de o salão estar cada dia mais bagunçado, às vezes meio sujo. Lembro que de vez em quando sentia um pouco de nojo. Será que o “Branquinha” justificava fazer as unhas lá? Em tempos de pandemia, passaria longe, mas naquela época, seduzida pelos mimos, me rendi.

Como tudo termina um dia, nosso romance chegou ao final, muito por acaso. Um dia resolvi limpar minha caixa de maquiagem, e perguntei a ela o que ainda estava legal, e o que deveria jogar fora. A Neusa, super fofolete, com a maior atenção, separou o que prestava e o que eu deveria descartar. Trouxe para casa o saldo e deixei com ela o que não estava bom, ela disse que jogaria fora depois.

Passadas algumas semanas fui lá de novo, me maquiar para uma festa qualquer. Ela abriu sua caixa de maquiagem e minhas coisas estavam lá, me encarando. Nada tinha ido pro lixo.

Eu não falei nada. Lembro da aflição que senti e da vontade de ir embora. Não fui, fiquei lá sentada, sendo maquiada por ela, e vendo o meu batom velho dançar na sua caixa de maquiagem. Era um batom numa embalagem dourada, bem gasto, de uma marca muito boa. Dela senti raiva, do batom fiquei com ciúmes.

Paguei a conta, e, depois disso, sumi. Algum tempo depois ela me procurou no Facebook mandou uns recadinhos e eu não respondi. Travei. Nunca mais consegui entrar no salão.