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Transa Sexo?

“Transa sexo”?  Me mexi no banco, coloquei as minhas mãos no colo. A distância das nossas pernas era pequena. Droga de carro minúsculo, um Fiat vermelho 147. Que pergunta... Quanto tempo até em casa? Era a primeira vez que eu pedia carona ao meu professor de teatro.  

Fui parar no grupo de teatro meio sem querer, o diretor da escola entrou na minha sala e me convidou na frente de todos para participar do grupo, tinha me visto atuar e gostou. Eu fiquei tão feliz que nem pensei em recusar, meu histórico de má aluna ficou em segundo plano a partir daquele momento. 

A peça era a “A terceira margem do Rio”, um conto do Guimarães Rosa, que o diretor iria adaptar. Começaram os ensaios, todas as tardes durante dois meses. Eu tinha 16 anos e nunca havia participado de um grupo de teatro, nem mantido no colégio qualquer contato físico mais próximo com ninguém. Era descolada no final de semana, com os meus amigos de sempre, e travada na escola.

Tudo piorou na época do teatro. O pessoal do grupo era o mais descolado, todo mundo namorava, cumprimentavam-se com selinho e eu me sentia um bebê. 

Para mitigar o meu mal-estar e, não ter que cumprimentar meus novos amigos do teatro, chegava antes do horário das aulas, quando ainda não tinha ninguém no pátio, e ia direto à minha sala, assim, evitava os “ois” de todas as manhãs, aqueles abraços infinitos e os tais selinhos.

Durante os ensaios era dose. Até o diretor quis participar do grupo, eu me lembro de alguns ensaios com ele, que durante muito tempo eram na verdade laboratórios de corpo e voz, onde a gente experimentava, se experimentava. 

O diretor era casado e tinha três filhos. Imagino que ele deveria ter na época perto de uns quarenta anos, era um típico cara anos 80, com aquelas bolsas de couro de alça transversal, calça de veludo cotele, cabelo cumprido querendo rarear e barba.

Durante aquela carona fiquei pensando no que responder. Transar sexo?  Nem entendi direito a pergunta. Forcei lá um sorriso e acho que disse que sim, mas de verdade àquela altura eu nem tinha noção do que ele queria dizer, não que eu fosse uma ingênua completa, mas, ainda estava longe de “transar sexo”.  

Cheguei em casa e quando avistei a minha mãe fui logo contando, achando graça da pergunta do professor. Só eu achei. Ela ficou brava. Queria, porque queria, ir até a escola tirar satisfações com o professor e diretores. Não deixei, implorei para ela não ir. 

Ela acabou esquecendo, não foi. Eu nunca mais pedi carona pra ele, não toquei mais no assunto “teatro” em casa e finalmente chegou   a semana “Guimarães Rosa”.  Nossa peça seria encenada em vários planos, em um deles ficaríamos em cima do telhado da escola, que era um sobrado na Vila Madalena. 

Meu personagem foi criado para a peça. Era uma parenta que veio cuidar das crianças abandonadas pelo pai, que deixou a família para ir viver no rio. Me lembro da minha frase mais emblemática: “os três meninos, três passarinhos”.  Durante quatro noites encenamos a peça. A gente atuava, cantava as canções do folclore do Rio São Francisco que eu nunca mais esqueci. Fui feliz naqueles quatro dias e até durante os ensaios apesar da minha timidez, percebi ali como o palco é um lugar muito precioso pra mim.

Fui famosa na escola por aqueles dias, todo mundo vinha falar comigo, “ah não conhecia esse seu lado...”  eu gostei. 

Com medo da reação da minha mãe não a convidei de início para ir à peça. Meu pai foi todos os dias e adorou tudo. No último dia tomei coragem e convidei a minha mãe. Não me lembro se pedi discrição em relação ao professor, mas a ida dela me gerou uma certa tensão. 

Quando terminou fui toda animada saber o que ela achou. “Gostei”, ela disse. “Mas o sotaque não estava muito bom.”